
Finda a sobremesa, diz a Maria Inês que a mãe deve tirar uma fotografia e escrever a receita, para não se esquecer. Eu tenho uma fé inabalável na minha memória – e, mais do que isso, as receitas em princípio não são para repetir, porque os ingredientes à disposição na cozinha nunca são os mesmos. Mas talvez a criança tenha razão, ou talvez esteja seja a forma de ela dizer que sim, a mãe deve repetir o mimo.
As maçãs reinetas eram para assar, mas não foram. Uma já apodrecia na taça. Vai daí que se descascam, partem-se aos bocadinhos, põem-se dentro do fervedor e liga-se o lume, não muito forte. Se sozinhas já são boas, com canela e cravinho são ainda melhores. E ali ficam, sossegadas, até virar puré.
No fundo dos potes de iogurte da velha iogurteira Moullinex, coloquei umas colheradas de iogurte grego comprado na loja, e juntei-lhe uma simulação de açúcar que afinal vai-se a ver e são glucosídeos de esteviol. Faz bem à saúde e evita a culpa – mas não por muito tempo, porque em cima do iogurte vai um biscotto savoiardo al cacao (que é como quem diz, um biscoito de champanhe de chocolate) partido aos bocados.
Retirei a companhia do pau de canela e dos cravinhos ao puré de reineta, e dividi o dito pelos potes, por cima do biscoito. Tapei tudo e enfiei no congelador, porque a maçã ainda estava quente, e eu gosto de viver no limite.
A estadia foi curta, coisa de quarenta e cinco minutos. Depois peguei numas nozes (fruto que habitualmente nem aprecio), cortei aos pedacinhos, com um faca grande como manda a lei, e espalhei por cima.
Comeu-se tudo, embora a Alice alegasse não ter gostado. Desconfio que foi por já ter a barriga bem forrada de massa com carne e sopa de abóbora. O pedido para tirar a fotografia já veio tarde, mas cumpri na mesma, para efeitos de registo histórico.